domingo, 10 de junho de 2012
CONCLUSÕES do Seminário Internacional da LOC/MTC em Sesimbra
Entre os dias 7 e 10 de junho de 2012 decorreu em Sesimbra, no cineteatro João Mota, um Seminário promovido pela LOC/MTC, tendo como tema “Pelo direito ao trabalho digno para todos”.
Participaram neste encontro membros de várias organizações civis e eclesiais, nacionais e internacionais, num total de 60 participantes. Estiveram ainda presentes, o presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, o bispo da diocese de Setúbal e representantes do EZA – Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores.
Desta sessão saíram algumas conclusões, expressas em constatações, convicções e desafios que passamos a elencar.
O trabalho humano está a passar por grandes mudanças. Mas estas mudanças não podem significar o retrocesso civilizacional. Se o trabalho digno e justamente remunerado é hoje reconhecido como importante direito humano, consagrado em constituições estatais e no modelo europeu, porque é que cada vez mais esses direitos são retirados e espezinhados? Porque é que, depois de uma década de revisões da lei laboral, da implementação de novos códigos laborais, de flexibilizações, etc., estamos cada vez com mais trabalho precário e desemprego? O trabalho está a perder o seu lugar de pilar de realização humana e de desenvolvimento social e a empregabilidade está hoje restrita apenas a uma parte daqueles que estão aptos e submissos a adaptar-se à flexibilidade e à mobilidade. E exclui milhões em todo o mundo.
A própria OIT, Organização Internacional do Trabalho, alerta para o aumento da instabilidade e precariedade para quem tem trabalho. Para a deterioração do panorama social, da menor confiança na justiça, nas instituições públicas e políticas, sendo que este afastamento dos cidadãos representa uma ameaça para a democracia. Alerta, igualmente, para o perigo da armadilha da austeridade, adotada também pelos países em melhor situação económica. Fizeram-no como forma de prevenção, agravando a situação e diminuindo a competitividade dos países em dificuldade.
Com isto houve um enfraquecimento das leis laborais, provocadas em boa parte pelos mercados especulativos que tem levado a políticas de austeridade desastrosas e opressoras, como são corte de salários e de direitos dos trabalhadores. É necessário reconhecer que não são os homens e as mulheres, jovens e adultos que não querem trabalhar. Porque dizer o contrário no panorama da situação atual é um absurdo e uma grave ofensa aos mesmos. Os jovens, licenciados e qualificados e os trabalhadores mais velhos, estão a pagar as consequências de um sistema económico e financeiro assente apenas em medidas mercantilistas e produtivistas.
Trabalhar é um dever - a esse dever corresponde a virtude da laboriosidade. Mas trabalhar impõe por isso mesmo que a organização social permita que a pessoa se torne mais pessoa, que se realize através do trabalho ao invés de degradar-se por causa do trabalho. Os bens da terra são uma dádiva do criador, nenhum ser humano tem privilégio sobre eles. O princípio do destino universal dos bens e o direito ao seu uso comum, sobrepõe-se ao princípio da propriedade privada.
Face a isto, é fundamental continuarmos a anunciar que existem alternativas viáveis que voltem a colocar o princípio do trabalho digno na agenda política.
É urgente debater o real valor do trabalho humano onde todos devem ter lugar, no respeito pela capacidade e pela criatividade de cada um. O trabalho é fonte de dignidade, de valor e de reconhecimento, é fator de inclusão e de compromisso social; é condição integradora numa sociedade solidária e organizada, em que cada um faz parte de um todo.
Existem modelos económicos alternativos e mais sustentáveis que podem criar novos postos de trabalho, como na economia social, solidária e cooperativa, nos sectores energéticos, ambientais e de garantia da soberania alimentar dos países.
É premente trabalhar para uma maior democratização da vida das empresas, para o reforço da contratação coletiva e para a promoção de um autêntico e frutuoso diálogo social onde os trabalhadores, através dos seus representantes, sejam escutados nas suas ideias e nas suas propostas.
É importante “repolitizar” discursos e propostas, porque a política é e continua a ser um instrumento de intervenção democrática à qual é urgente dar-lhe uma dimensão internacional.
É necessário construir propostas para o imediato, convictos de que as soluções para a crise se devem centrar em primeiro lugar nos problemas do desemprego e não no sistema financeiro.
Como movimentos de trabalhadores cristãos somos chamados e responsabilizados por transformar e humanizar a sociedade através da inclusão de todos os homens e mulheres no acesso a um trabalho digno, justamente remunerado, criativo e livre, porque para nós o trabalho faz parte do ato da Criação e é através dele que em cada homem e mulher é reconhecida a imagem de Deus.
Este Seminário, promovido e organizado pela Liga Operária Católica – Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC), contou com o apoio financeiro do EZA – Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores e da União Europeia.
Sesimbra, 10 de Junho de 2012
Equipa Nacional da LOC/MTC
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Caros Companheiros
ResponderEliminarEstive presente por breves momentos no vosso encontro.
Tenho pena de não ter tido conhecimento "ou ter sido mobilizado" para organizar a minha agenda de forma a participar todo o tempo.
Li com atenção as conclusões, do-vos toda a razão.
" É importante “repolitizar” discursos e propostas, porque a política é e continua a ser um instrumento de intervenção democrática à qual é urgente dar-lhe uma dimensão internacional."
Nesta simples frase está espelhada a realidade do que não acontece.
Não é só importante como é necessário e urgente "repolitizar discursos e propostas"
A Socieade atual está virada para o material deixando para trás todo o processo de engradecimento do pensamento humano e a democratização do "pensar" do "eu para o conjunto" do "conjuto para o eu" logo, ficando também para trás, o sentimento social e, pelo desenvolvimento do pensamento, fica também para trás, a solidariedade social ou seja o sentimento de partilha e entreajuda.
"A luta de classes" não é um conceito ultapassado está cada vez mais presente nos nossos dias.
As classes existem, a nova escravidão existe, em outra face do prisma mas existe.
"... E agora não estou a escrever para reclamar coisa alguma..... Qual então o meu salário? ... prego-o gratuitamente.
Onde estão os que solidariamente não reclamam coisa alguma? os que não perguntam pelo seu salário? e ajudam o próximo gratuitamente?
As couve quando é semeada, nasce e cresce, é arrancada para ser replantada e crescer ainda mais, dar folhas para serem repartidas pela vizinhança e todos comerem uma parte que a couve se divide.
Quando a Humanidade responder a esta simples questão responderá aos direitos.
Quando começam, terminam ou se exercem, se reclamam e, se, se reclamam é porque não existem, ou se existem não são respeitados, logo não são respeitados não existem.
Os direitos são a base da sociedade organizada, já dizia o pensador "É preciso reorganizar a sociedade"
Florindo Paliotes